domingo, 15 de janeiro de 2012

O Perfume


Hoje, depois de pelo menos umas três horas deitada na minha cama em no máximo duas tentativas de posição confortável, terminei de ler O Perfume - A História de um assassino (Das Parfum no título original), uma belíssima obra de Patrick Süskind que conta a história de um jovem que desde muito cedo tem posse do mais extraordinário poder olfativo que jamais existiu na face da Terra.

O personagem Jean-Baptiste Grenouille é retratado na ficção como um sujeito alheio ao mundo, solitário, que nunca recebeu nenhuma forma de amor. Porém, ele tem um dom. Seu único talento, o de buscar, selecionar e categorizar aromas o leva a procurar seu verdadeiro sentido da vida: descobrir um perfume único e capaz de provocar profundo estímulo em quem sentir seu aroma.

O livro todo é cheio de referências tão bem descritas que dá ao leitor a sensação de estar dentro da loja de perfumes e especiarias de Giuseppe Baldini, ou dentro de uma cena de crime, ou diluindo em álcool suas fragrâncias preparadas para a realização de seu projeto pessoal. A narrativa, não-estática, ora nos leva a ficar na posição de Grenouille ou na dos outros personagens com quem ele convive. O narrador está sempre em uma posição de transcendência no relato dos acontecimentos, tendo o conhecimento de tudo o que está ocorrendo. A descrição dos cheiros - bons e ruins - que percorrem toda a narrativa, como disse antes, é tão importante que o narrador parece ele próprio o assassino.

A linguagem é um ponto marcante na história. Algumas vezes me assustei, pois dentro de uma descrição bela de uma fragrância o autor utiliza-se de substantivos de forte carga semântica, como larvas, putrefação, entre outros, que tornam o relato às vezes bastante incômodo... acredito que uma história tão destrutiva como é O Perfume garante seu tom exatamente por isso: a maneira com que o autor trabalha as palavras positivas e negativas de forma tão brilhante.

Em 2006 foi realizada uma adaptação cinematográfica da obra mostrando as artísticas atrocidades de Grenouille. Exatamente como no livro, ele isenta seus outros quatro sentidos para dar vez a seu olfato poderoso. Algumas partes do livro não foram mostradas, como a redenção de Grenouille após sua exclusão do mundo em sua caverna, com a ajuda do Marquês de La Taillade-Espinasse, que utiliza-se dele como cobaia em um experimento científico, ou na enorme descrição do sucesso dos perfumes de Baldini. Talvez partes significativas na história publicada em livro não tivesse significado tão importante para o cinema, mas é um filme bastante fiel à obra literária como um todo. E o garoto que encarnou o personagem principal é extremamente verossímil, quase tão parecido quanto o Grenouille imaginado (por mim) no texto escrito...

Primeiro livro lido em 2012, O Perfume fez meu começo de ano bem mais - caham - perfumado.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Amor depois da morte

Eu não sei se é porque eu estou super sensível-mulherzinha-na-TPM, mas essa história é muito linda. Como as pessoas podem ficar com nojinho com coisas assim? Eu acho que é inveja.

É tipo a lenda do D. Pedro e a sua Inês de Castro.

Férias

Hoje é o meu último dia de férias, o que significa que eu trabalhei feito camela o dia todo pra arrumar a mala e não esquecer as coisas-chaves para viajar amanhã cedinho.
Eu peguei meias, lingerie. Depois fui ao banheiro garimpar tudo o que eu sempre deixo lá, como escova de dentes, toalhas, condicionador, esmalte, etc. Agora eu estou dobrando umas camisetas e guardando minha diversão na volta ao trabalho: DVDs do Bones e alguns livros que eu peguei emprestados do namorado. Vou me acabar em Araraquara, lide com isto.

O dia hoje está frio e chuvoso. Fiquei tentando baixar "Fahrenheit 451" o dia todo, mas por incompetência pura do Speedy a internet foi quicando até a morte e eu, por muito pouco, não consegui baixar o filme todo a tempo. Assim que consegui terminar o download eu tentei rodar na TV da sala, só que existe uma coisa muito séria e que deve ser um dos grandes problemas familiares causadores de sérios danos em suas estruturas: só tem uma TV na casa. E é daquelas TVs que ficam ligadas o dia inteiro nas ~novelas~. Eu sempre pergunto pra minha mãe por que ela e meu pai decidiram comprar uma TV de LED pra assistir NOVELA e BBB. Eu nunca vou entender esse fenômeno. Então eu fiquei sem ver o filme (e eu não vou ver no notebook porque é comprovado cientificamente que assistir filme numa tela de 14" é coisa de looser).

Amanhã já estarei de volta, agora no emprego novo. Eu adoro essa expectativa de trabalho novo, é como se eu tivesse mais um lugar reservado para me entediar.

Ouvindo: Chet Baker - There's A Lull In My Life

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Não lembrava mais que eu tinha um blog aqui. Eu havia esquecido meu login e depois que eu lembrei do login eu não lembrava da minha senha. E daí que eu lembrei dos dois eu vim parar aqui pra escrever, porque hoje eu não estava me aguentando. E o ponto que me levou pra cá foi a notícia de que uma das minhas amigas de colégio, que eu gostava tanto, se separou do namorado/marido depois de seis anos juntos. E eu soube disso hoje através de terceiros.

E me estarrece saber que um dos relacionamentos mais divertidos que eu já vi no mundo desapareceu, como se o conceito de descartabilidade das relações humanas fosse aplicável até às pessoas que eram (ou eu achava, etc) completamente alheias a ela. E foi um soco no estômago saber disso tudo, ensejando o contrário.

Geralmente sou apartidária de algumas situações que ocorrem com casais. Não gosto de culpar uma pisada de bola, um não-te-dou-satisfações, pois as pessoas se acostumam às intempéries que elas mesmas criam. Uma situação antes insuportável pode esperar alguns dias para que tudo volte ao normal. Sou adepta da ideia de que amanhã tudo se resolve. Hoje em dia até as crises são descartáveis.

Não deu.

Eu não acho que tudo seja tão inexorável a ponto das pessoas continuarem no mesmo lugar que começaram em um relacionamento. Mas quero acreditar que aqueles velhos modelos insolúveis se perpetuem. Gosto de pensar que meus avós aguentaram uns bons sopapos no coração em seus quase 60 anos de casados. Nada que apareça nas fotografias, é claro. Mas no fundo deve haver muito amor contruído ano após ano. Eu penso: "Sério que ela aguentou esse tempo todo aquele carinha que fala tão baixo quanto sua altura?". A vida tem dessas.

Ouvindo: Bill Callahan - Too Many Birds

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Teoria da mulher previsível

Conversando com uma grande amiga minha, a Fer, chegamos à conclusão de que há dois tipos de mulheres: a mulher normal, com seus defeitos e qualidades (poderia dizer anormal também, visto que a anormalidade é mais comum do que se pensa, aquele tipo de mulher que não é sonsinha, nem muito menos abre a boca quando o mínimo pedido é ficar em silêncio), e existe também a mulher previsível, a qual todos os seus atos, vontades e desejos são tão previsíveis quanto achar água salgada no oceano.


Ok, que minhas metáforas hoje estão tão péssimas, ou, digamos, "previsíveis".


Mas outro dia eu falo mais dessa teoria, tão aplicável nos dias de hoje, porque agora eu vou ao cinema.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Um dia de protesto

Protesto às segundas-feiras preguiçosas, ao leite congelado na geladeira quebrada, à exaltação da virilidade masculina, como se homens não tivessem o direito de serem sensíveis. Protesto ao cheiro de picaretagem que infesta os departamentos da faculdade, à idiotice que emana de alunos igualmente idiotas, e a quantidade de pérolas proferidas pelos mesmos. Protesto a bagunça que eu não consigo arrumar em meu quarto, à louça sem lavar, à roupa suja jogada no canto da lavanderia, ao meu celular perdido, a enorme quantidade de coisas para fazer, mas por hábito, as deixo para última hora, como trabalhos e exercícios de inglês. Protesto a inutilidade proferida por alguns seres contando do último "bafão" da semana, ao lixo sonoro vindo de carros "tunados", com motoristas que adoram lixos sonoros típicos de carros tunados. Protesto à falta de respeito de motoristas de ônibus que não param para idosos; a completa falta de higiene de pessoas passando fio dental nos dentes ao lado do bandejão. Protesto a pessoas que rasuram, riscam e estragam livros da Biblioteca. Protesto a pessoas que abrem as janelas dos ônibus com ar condicionado, por mim, tiraria toda essa mordomia daqueles que não sabem aproveitar.

Protesto à normalidade irritante, ao cotidianinho medíocre de menininhas de classe média; ao telefone que toca; ao telefone que não toca. Protesto àquele "tudo bem?" que não é mais ouvido como uma pergunta de preocupação, mas como um simples cumprimento. Protesto ao politicamente correto, protesto!

Protesto ao péssimo atendimento das imobiliárias, que só sobrevivem porque nós dependemos deles. Protesto ao mal hábito do excelentíssimo senhor da Seção de Graduação de sempre atender a todos com aquela expressão linda de "durmo de calça jeans há 10 anos". Protesto ao dono da banca de jornal que não me deixa ler gibis antes de comprá-los. Protesto aos preços absurdos de livros e cd's. Protesto à RIAA por tanta hipocrisia. Protesto àqueles que pensam que mulher possui preferências inatas, que mulher deve gostar de rosa, e não do azul e odiar qualquer coisa que envolva as palavras "astronomia"/"video-game"/"mitologia".


Protestar é uma forma válida de libertação.

Ouvindo: Massive Attack - Man Next Door

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Coisas que te irritam pt I (de XLVII)

Estava eu no ônibus sentido Carmo-Campus, já passando pela catraca quando me lembro que não tinha mais passes no meu cartão magnético. Ok. Abro a carteira e tiro uma nota de 5, a única, aliás. A mulher me olha, e com a maior calma do mundo vai tirando moedinha por moedinha até completar meu troco, que no final enchia minha mão de moedas das mais variadas quantias. Isso quando já tocava uma droga de alarme e a mulher, com a maior cara de CÚ da história, me diz:
- Corre, que senão você vai perder tua passagem.
Q?
Primeiro, eu tava esperando a merda do troco, que se não fosse por isso eu não ia ficar igual uma monga pra segurar um saco de moedas de 10 centavos enquanto me segurava pra não cair com o movimento do ônibus, simplesmente ia passar a porcaria do cartão e ela não ia mais ver minha cara. Eu não ia perder porcaria nenhuma. A culpa é toda sua e da sua lerdeza. E outra, por que raios uma pessoa aperta o botão de passagem sem antes receber o dinheiro, sendo que não tinha ninguém atrás de mim que justificasse a pressa para que eu saisse do caminho? Sei lá, vai que eu sou uma salafrária cheia de notas falsas de cinco reais na carteira, ninguém pode saber.
No final, acabei sentando num banco e pondo aquele meu disco favorito do Fantomas, o Director's Cut, pra ouvir no mp3 player. Mike Patton owna minha vida.
Ouvindo: Fantomas - The Omen (Ave Satani)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Blogchiatrist

Oi, meu nome é Karina e tenho 21 anos.
Oi, meu nome é Karina e eu gosto de qualquer coisa com ketchup.
Oi, meu nome é Karina e eu como todos os vegetais e frutas.
Oi, meu nome é Karina e eu planejo uma alimentação saudável.
Oi, meu nome é Karina e eu gostaria de ter feito Ballet.
Oi, meu nome é Karina e eu quero aprender a tocar todos os instrumentos musicais.
Oi, meu nome é Karina e sei tocar um pouco violão.
Oi, meu nome é Karina e eu coleciono hq's.
Oi, meu nome é Karina e eu acho o óbvio e o comum tão irritantes!
Oi, meu nome é Karina e eu prefiro a noite ao dia.
Oi, meu nome é Karina e eu estudo em outra cidade.
Oi, meu nome é Karina e eu pretendo morar na capital.
Oi, meu nome é Karina e eu tenho um Twitter.
Oi, meu nome é Karina e eu aprendi recentemente o que faz um "Ornitorrinolaringologista".
Oi, meu nome é Karina e acho toda a obra do Will Eisner o "masterpiece" da arte.
Oi, meu nome é Karina e eu prefiro levar a dar um pé na bunda.
Oi, meu nome é Karina e eu gosto de música clássica.
Oi, meu nome é Karina e eu ri de cair lágrimas quando descobri a existência da saga de "Wagner & Beethoven".
Oi, meu nome é Karina e eu estudo em uma Universidade Pública.
Oi, meu nome é Karina e eu não aguento ouvir falar em "Socialismo" nos dias atuais.
Oi, meu nome é Karina e eu sou meio nerd.
Oi, meu nome é Karina e meu humor é um bocado peculiar.
Oi, meu nome é Karina e eu odeio salões de beleza e mulherzices em geral.
Oi, meu nome é Karina e eu ainda assim sou vaidosa.
Oi, meu nome é Karina e eu sou míope.
Oi, meu nome é Karina e eu sou boa ouvinte, embora raramente as pessoas colaborem para que meus ouvidos ouçam coisas agradáveis e/ou úteis.
Oi, meu nome é Karina e estou pensando em participar de um grupo de estudos.
Oi, meu nome é Karina e eu gosto de conversar com as poucas pessoas de quem eu gosto.
Oi, meu nome é Karina e moro com pessoas incríveis.
Oi, meu nome é Karina e já me ferrei bastantão com pseudo-amigos.
Oi, meu nome é Karina e ainda tenho um pouco de fé na humanidade.
Oi, meu nome é Karina e eu creio em Deus, independentemente de qualquer coisa.
Oi, meu nome é Karina e tenho amores platônicos.
Oi, meu nome é Karina e a maioria deles eu acabo esquecendo rapidamente.
Oi, meu nome é Karina e o meu gênero de metal favorito é o Doom Metal.
Oi, meu nome é Karina e eu tenho mais amigos que amigas.
Oi, meu nome é Karina e eu prefiro assim.
Oi, meu nome é Karina e eu gosto do meu nome.
Oi, meu nome é Karina e eu tenho sobrenome de pessoa rica, mas não tenho um tostão no bolso neste exato momento.
Oi, meu nome é Karina e o seu não!
Oi, meu nome é Karina e gostaria de conhecer o Kevin Smith.
Oi, meu nome é Karina e o meu Perpétuo favorito é a Morte.
Oi, meu nome é Karina e eu sempre faço dramas existenciais.
Oi, meu nome é Karina e pretendo trabalhar em Editoras.
Oi, meu nome é Karina e eu tenho uma boa coleção de livros.
Oi, meu nome é Karina e eu compro livros demasiadamente, mas nunca sobra tempo para que eu os lesse da maneira que gostaria.
Oi, meu nome é Karina e eu faço o meu melhor, ainda que poucas pessoas ainda dêem créditos a isto, ou ao valor de pequenas coisas.

ouvindo: lungfish - nation saving song

domingo, 26 de abril de 2009

hi, i'm 21 and I don't feel nothing.


ontem eu tava conversando com uma amiga de BH sobre o quanto essa época pré-aniversário (ou o que os místicos se referem a "Inferno Astral") é definitivamente uma bosta. primeiro que eu não sou uma pessoa exotérica (é assim que se escreve ou não?), nem ao menos sei o signo do meu pai por exemplo e soube que sou Taurina porque alguma boa alma me informou que o signo de Touro pertence a alguém nascido no final de abril. segundo, eu nem entro no mérito astrológico x astronômico da coisa, isso é óbvio, o primeiro não tem valor científico nenhum perante o segundo. mas olha que gozado né, há dois anos pra cá eu sinto o mesmo vazio dias antes de aniversariar, como se o fato de ficar mais velha e ganhasse dois quilos a mais por ano fizesse uma graaaande diferença. acho que isso significa que eu deveria ler Nietzsche.

daí que, voltando ao assunto, essa mesma amiga me recomendou o Personare, um site especializado em mapa astral e numerologia e o diabo a quatro e eu resolvi me inscrever pra ver qual é, pra ver o que os astros (lol) me dizem sobre isso. aí está, grifando as partes mais absurdas:

"Em nosso aniversário a vida se renova, pois entramos em nosso "ano novo pessoal". As atenções se voltam para nós, resgatamos nosso brilho de alma. É claro, aproveitar ou não este momento depende de você.

Que tal fazer resoluções para este novo ano que se inicia? Eu sei, você dirá que muitas outras vezes no passado você fez resoluções e planos que não conseguiu cumprir. Isso realmente é chato, e pode lhe tirar o estímulo, mas você já parou para pensar o que está por detrás das resoluções que não se tornaram reais?

Em primeiro lugar, e acima de tudo, é preciso considerar a qualidade natural do ano, Karina. A palavra "considerar" vem do latim "considerare", e significa "estar com o céu". Antes de fazer planos, é preciso verificar qual é a qualidade do céu para aquele ano! Pois a cada aniversário ganhamos um "mapa astral novo", um mapa simbólico que aponta as correntes mais rápidas e adequadas para se navegar no rio das nossas vidas.

Uma coisa é certa, Karina: neste período do seu aniversário, sua força pessoal se renova. Você está realmente com um poder maior para realizar seus desejos, intentos, interesses. Mas não são quaisquer intentos. É preciso ouvir o céu, saber ler o que os planetas estão dispondo para você neste ano. E existe uma forma de fazer isso: é conhecendo a sua REVOLUÇÃO SOLAR, uma interpretação astrológica que vai de um aniversário ao outro, revelando as predisposições naturais para este ano em específico. Que tal fazer as resoluções certas desta vez, considerando o que o céu dispõe?"

gostaria de salientar que isso me deixou absurdamente mais otimista. ainda mais sabendo que estou prestes a encontrar minha Revolução Solar, ou o que raios isso significa, anyway.

ouvindo: Neurosis - Locust Star

sábado, 11 de abril de 2009

Gramaticalizando

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.

Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.

Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

[redação feita por uma aluna de Letras da UFPE, que venceu um concurso promovido na área de Gramática da Língua Portuguesa].